Neste comentário, escrito originalmente em 2019, o autor aborda algumas acusações sérias (e infundadas) feitas por Donatti (2016) em artigo publicado pela Revista de Arqueologia Pública. Dado o caráter superficial e anticientífico do artigo, o autor questiona os critérios de avaliação que permitiram sua publicação em uma revista de conceito B1 no Qualis.
Durante uma pesquisa para a atualização de um levantamento bibliográfico sobre a vida e a obra do etnólogo brasileiro de origem alemã Curt Nimuendajú (1883-1945), deparei com o artigo de Patrícia Bayod Donatti, “Resquícios de Curt Nimuendajú”, publicado no vol. 10, n. 3, 2016, da Revista de Arqueologia Pública. O artigo me causou surpresas em vários sentidos. Em primeiro lugar, o título desperta curiosidade, já que a palavra ‘resquícios’ pode ter vários significados. Ela pode ser entendida como ‘vestígios’, mas também como ‘restos’ ou legados deixados em documentos, por exemplo.
Na realidade, o artigo é constituído por duas partes que não dialogam. Na primeira parte, temos uma apresentação superficial da biografia de Nimuendajú e depois, na segunda, uma tentativa de relacioná-la com o holocausto. O conceito de holocausto é discutido com base em uma única referência (um livro de Andreas Huyssen), o que evidentemente é insuficiente no caso de um tema como este. No final, a autora chega a afirmar que as instituições que financiaram as pesquisas e atividades colecionistas de Nimuendajú teriam sido, afinal de contas, responsáveis pelo genocídio dos povos indígenas no Brasil.
Ela não citou as instituições explicitamente, mas se sabe quem financiou as pesquisas etnológicas, arqueológicas e linguísticas de Nimuendajú: o Museu Paraense Emilio Goeldi, o Museu Nacional, a Smithsonian Institution (EUA), os museus etnológicos de Hamburgo, Dresden e Leipzig (Alemanha) e o Museu Etnográfico de Gotemburgo (Suécia). No entanto, a autora não apresenta uma única prova para acusações tão graves. Para apresentar provas ou ao menos indícios para afirmações tão sérias, teria sido necessário realizar pesquisas detalhadas em arquivos ou das próprias instituições implicitamente citadas ou em outros arquivos para conseguir juntar uma base sólida de evidências, o que não foi feito. Donatti nem citou nenhuma bibliografia que pudesse corroborar suas acusações.
A própria autora documentou seus problemas com pesquisas empíricas num relato subjetivista sobre o fracasso de seu doutorado na Universidade de Leiden, na Holanda (Donatti, 2013). Nesse livro, ela se apresenta como “autora pós-colonial”. No entanto, ser seguidora de determinada vertente teórica não significa ter carta branca para afirmar qualquer coisa sem apresentar evidências ou citar as fontes. Em outras palavras, a autora se aproximou, em seu estilo, dos aliados do atual presidente americano, Donald Trump, quando fizeram referência a supostos “fatos alternativos”.
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| "Família do Capitão guarani José Honório Avacaudju, pai adotivo de Curt Unckel, em 1905. [...] Museu Geológico do Instituto Geológico/SMA-SP." (Welper 2016) |
Afirmações incorretas e inverídicas podem ser identificadas até em detalhes como a questão do nome do etnólogo. Curt Unckel não “se apropriou” (p. 82) do nome Nimuendajú, mas o recebeu num ritual de batismo realizado numa aldeia Guarani e descrito por ele em todos os detalhes (Nimuendajú, 1914). Ele foi adotado por uma família indígena. Desse modo, não se trata de um “pseudônimo, omitindo o sobrenome alemão” (p. 82), como se se tratasse de um suspense hollywoodiano da década de 1970 com velhos nazistas vivendo sob falsas identidades na sociedade americana.
Pelo contrário, Nimuendajú já assinava explicitamente seus primeiros trabalhos científicos com o sobrenome indígena. E este foi aceito pelas autoridades brasileiras, quando Nimuendajú optou pela nacionalidade brasileira em 1926. O documento original de naturalização encontra-se no Arquivo Guilherme de La Penha, no MPEG.
Há, contudo, outro aspecto do artigo, além de sua anticientificidade, que me causou um enorme espanto. Como foi possível que ele passou pelo crivo da revisão em pares sem que suas características fossem percebidas? Afinal de contas, a Revista de Arqueologia Pública tem o conceito B1 no Qualis Periódicos do quadriênio 2013-2016.
Referências
DONATTI, Patrícia Bayod. As políticas da antropologia brasileira: o caso de Curt Nimuendajú. Curitiba: Appris, 2013.
NIMUENDAJÚ, Curt. Die Sagen von derErschaffung und Vernichtung der Welt als Grundlagen der Religion derApapocúva-Guaraní. Zeitschrift für Ethnologie, Berlin, v. 46, p. 284-403, 1914.
14/03/2019
!["Família do Capitão guarani José Honório Avacaudju, pai adotivo de Curt Unckel, em 1905" "Família do Capitão guarani José Honório Avacaudju, pai adotivo de Curt Unckel, em 1905. [...] Museu Geológico do Instituto Geológico/SMA-SP."](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjpBo9bzLFOlm8etlaLdx9UZLQYeZDe51r5zru9P5av8OMHfk3m43fN89eGIqP461g35Ysf7FJAleH6vgKLMX11I_Qw8KqAmnwEFnPO8MriHQ16Ceqx632NpM4YHfyiq8V74mrqZyGyR41SEf2pEVEaYCOhyphenhyphen_YwGPLXy8XcJgyEs6En-Dio3VWT5w/s16000/familia.png)