Participante ativo na vida intelectual da região, Manuel Cruz foi colaborador assíduo da revista O Garimpeiro (1937-1939), publicando ensaios sobre a história da região e sobre os Borôro; nesta revista saiu, por exemplo, o ensaio "A arte militar entre os Bororo" (1939), que seria republicado no ano seguinte na RIHGB. Suas colaborações caracterizam-se pela objetividade e o espírito científico, destoando da produção típica da intelectualidade provinciana da época, encomiástica, carola, de um civismo caricato.
Também raro para a época e o lugar, em um povoado garimpeiro que cresceu rapidamente à custa do território indígena, Manuel Cruz demonstrava simpatia, respeito e admiração pelos Borôro. Em seus "Ensaios sôbre os indios Bororôs" (1938), por exemplo, defende-os contra as habituais acusações de "ferocidade", explicando que suas escaramuças contra as populações locais eram reações aos abusos que sofriam, "revanches aos incalculaveis maltratos a que lhes submettiam os civilizados, servindo-os seus braços para os mesteres da lavoura, para o que lhe davam uma alimentação escassa e insuficiente para reparar ás necessidades do organismo, tratando-os com despreso, ameaça e galanteando-lhes as mulheres."
Nossa coleção de obras de Manuel Cruz já incluía vários itens, digitalizados por Renato Nicolai com seu habitual esmero, quando fomos contactados por Cid de Carvalho Cruz, filho do autor, com a generosa oferta de vários outros trabalhos de seu pai, enviados em janeiro de 2023 para completar a lista de publicações suas inventariadas por Baldus em sua Bibliografia Crítica (1954). Além de artigos já publicados, Cid enviou-nos uma carta inédita de seu pai a Herbert Baldus (1956), respondendo a questionamentos deste sobre aspectos da coleta dos dados que serviram de base ao estudo sobre a arte militar entre os Borôro.
Temos, portanto, o prazer de divulgar nossa Coleção Manuel Cruz, reunindo a obra de um personagem excepcional e pouco conhecido de nossa etnografia, fornecendo matéria-prima para um melhor conhecimento de um importante capítulo da povoação do Centro-Oeste:
http://www.etnolinguistica.org/autor:manuel-cruz
Friday, August 22, 2025
Sobre Manuel Cruz — advogado, prefeito e etnógrafo no leste matogrossense
Saturday, June 28, 2025
Entre o lamentável e o irremediável: notas para a reconstituição virtual do acervo do CELIN/MN
Eduardo R. Ribeiro
(junho de 2019)
Introdução
Como é do conhecimento de todos, com o trágico incêndio no Museu Nacional perdeu-se uma das mais importantes coleções de material bibliográfico sobre as línguas indígenas do Brasil: o acervo do Centro de Documentação de Línguas Indígenas (CELIN), que incluía, entre outras preciosidades, o espólio de Curt Nimuendajú, adquirido de sua viúva em 1950. Passado o choque inicial, quando finalmente se começava a ter uma dimensão mais precisa da destruição do acervo, ficou claro que, apesar de tudo, a perda poderia ter sido ainda maior, não fossem iniciativas como (1) a digitalização, em alta qualidade, do original da versão final do Mapa etno-histórico do Brazil e regiões adjacentes (Nimuendajú 1944), levada a cabo por Jorge Domingues Lopes (UFPA) & Marcus Vinícius Carvalho Garcia (IPHAN); (2) a digitalização, por iniciativas de Tânia Clemente e Marília Facó Soares, de centenas de fotos; (3) e o trabalho incansável e providencial de Elena Welper, que "estima ter digitalizado 30% do total de manuscritos que compunham o acervo etnográfico" de Nimuendajú.
Mas, afinal, qual é a dimensão qualitativa do que perdemos? Para se ter uma idéia mais precisa da abrangência e profundidade do material destruído, eu proponho nesta nota uma abordagem multifacetada: analisando-se os levantamentos catalográficos disponíveis à luz da vasta produção de Nimuendajú, particularmente sua correspondência; incentivando pesquisadores da área a compartilharem seus conhecimentos de tal material (e cópias que porventura tenham feito), especialmente entre aqueles que adquiriram, através de pesquisas in situ no CELIN/MN, familiaridade com o acervo; explorando-se o material bibliográfico resultante de tais pesquisas; e estabelecendo diálogos com acervos de outras instuições, a fim de se determinar o que havia de propriamente único (ou não) no material perdido. Embora a ênfase na presente nota seja o acervo de Curt Nimuendajú, a modesta "metodologia" aqui sugerida se aplica a todo o material que constituía o acervo.
Catálogos
Uma consulta ao Guia de fontes e bibliografia sobre línguas indígenas e produção associada: documentos do CELIN, organizado por Marília Facó Soares (2013), revela que, embora toda e qualquer perda seja lamentável, nem toda perda é irremediável. A grande maioria do material bibliográfico perdido constitui-se de livros, periódicos e artigos publicados, além de cópias de teses e dissertações. Embora muitos destes itens sejam, naturalmente, raros, estão disponíveis em outras instituições; muitos, inclusive, já foram digitalizados. Assim, por mais que seja lamentável a perda de uma obra rara como, por exemplo, os dois volumes dos Beiträge zur Ethnographie und Sprachenkunde Amerikas zumal Brasiliens de Martius (1867), não se trata de uma lacuna irremediável.
Outro tipo de material mais facilmente recuperável são relatórios de pesquisa cujas cópias teriam sido arquivadas também fora do Museu Nacional. Um exemplo: por razão de convênio estabelecido quando da instalação do Summer Institute of Linguistics no Brasil, o Museu Nacional funcionava como repositório dos relatórios de pesquisas e publicações daquela instituição norte-americana de linguistas missionários. Logo após o incêndio, o linguista Alan Vogel, do SIL, se ofereceu a fornecer cópias do material a quem se interessar. Como sempre, a Biblioteca Digital Curt Nimuendajú está à disposição da comunidade científica para facilitar o acesso a tal material.
Insubstituíveis, por outro lado, são manuscritos como aqueles do Fundo Nimuendajú, que corresponde grosso modo a 1/5 do material arrolado no Guia. Mas mesmo os itens nesta última categoria apresentam diferentes graus de importância em termos do que sua destruição representa como perda de conhecimento. Para manuscritos que vieram a ser publicados, o que se perde, para o pesquisador, é a possibilidade de se cotejar a versão publicada com seus respectivos manuscritos, em busca de possíveis deslizes de transcrição ou de insights sobre a evolução na elaboração do texto; a existência de diferentes versões, inclusive rascunhos de trabalhos já publicados, ajuda a documentar a evolução do pensamento do autor. Estaria neste caso — de trabalhos já publicados, mas cujos originais se perderam1 — a grande maioria da produção etnológica de Curt Nimuendajú, a julgar pelo que diz Eduardo Viveiros de Castro:
"Praticamente toda a produção etnológica de Nimuendaju já foi publicada, embora muito dela o tenha sido em edições hoje esgotadas, de acesso difícil, ou em alemão. Nos últimos anos, entretanto, algumas traduções, reedições e coletâneas vêm contribuindo para maior divulgação desta obra (ver a bibliografia abaixo). A maior parte dos inéditos de Nimuendaju consiste em materiais lingüísticos (vocabulários), apontamentos, rascunhos, fotos, e uma importante correspondência; salvo engano, apenas um ensaio descritivo sobre os Kayapó de Pau d'Arco (Irãamrayre) e, sobretudo, uma versão em português de sua monografia sobre os Timbira, que difere bastante da versão inglesa editada por Lowie (The Eastern Timbira) em 1946, são os trabalhos etnográficos importantes ainda inéditos. De toda forma, as monografias sobre os Xerente, os Timbira Orientais e os Tikuna ainda estão à espera de uma edição em português; mas seus trabalhos lingüísticos e sua correspondência também merecem uma edição crítica." (Castro 1986:66; grifos nossos)
É natural, portanto, que nosso interesse se volte a esse material linguístico inédito. Embora o caráter sucinto do Guia do CELIN não nos permita ter uma idéia precisa do valor documental de cada item, contamos também com o levantamento feito pela linguista Yonne Leite, Notícia dos trabalhos lingüísticos inéditos de Curt Nimuendaju (1960), que fornece maiores detalhes sobre seu conteúdo. Com Yonne Leite aprendemos que o material linguístico de Curt Nimuendajú é um tanto desigual, incluindo, ao lado de dados originais e inéditos, rascunhos de obras já publicadas e listas comparativas baseadas em dados extraídos de outras fontes. Para o linguista histórico-comparativo, este tipo de material comparativo é essencial para que se tenha uma idéia do teor das evidências usadas por Nimuendajú para a classificação das famílias lingüísticas em seu Mapa etno-histórico. Leite menciona também a existência de diversos mapas — "Mapa de localização de índios na zona do Xingu, Araguaia, Tocantins e São Francisco" (10), "Mapa das tribos do rio Doce", "Mapa da distribuição das línguas Tupí, colorido a lápis amarelo" (13) etc. —, que podem ser vistos como ensaios na elaboração do monumental mapa. Leite menciona que "algumas listas são cópias em carbono" (1, 2), o que sugere a possibilidade de que existam originais ou cópias adicionais em outras instituições.
Como lembra Câmara Jr. (1959), as contribuições linguísticas de maior fôlego produzidas por Nimuendajú dizem respeito à língua dos Xipaya, publicadas originalmente em alemão e recentemente traduzidas e publicadas no Brasil por Peter Schröder (UFPE). Mas o artigo de Leite sugere a existência de outros materiais também extensos, inéditos: apontamentos para uma gramática da língua Kaingáng (1, 19); "um caderno de papel almaço in octavo, à tinta, texto alemão, de Contribuições para o conhecimento da língua Tembé (1916), e um caderno de papel almaço in quarto, texto português, de Material para uma gramática da língua Tembé comparada com a Guaraní do Padre Montoya (1915-1916)" (12); "um minucioso estudo" "sôbre o parentesco do grupo lingüístico Yurúna, de vinte e três páginas" (1); etc. No caso destas línguas, que sobreviveram e vêm sendo documentadas usando métodos de coleta e análise modernos, o trabalho de Nimuendajú teria valor eminentemente histórico (e até histórico-comparativo). Mais cruciais, em termos de documentação lingüística, seriam os dados de línguas extintas, como o "Arvân"(Aruã, família Arawák), a língua dos habitantes originais da Ilha do Marajó, de que Nimuendajú coletou um vocabulário (20). Exemplos adicionais são as línguas Kamakã (família Kamakã, tronco Macro-Jê) e Xukurú (isolada) [vide parágrafo seguinte].
Correspondência
Para o conhecimento de detalhes do material destruído, ajuda-nos também a própria prolificidade de Curt Nimuendajú, cuja obra teria sido, na opinião de Darcy Ribeiro (1977:93), "mais importante do que a obra de todos os etnólogos brasileiros juntos". Sua fértil correspondência com pesquisadores brasileiros e internacionais, através da qual ele compartilhava hipóteses, descobertas, dados linguísticos, fotos e esboços de mapas, fornece inúmeras pistas sobre a natureza do material que ele deixou inédito. Por exemplo, como relata Mário Melo, Nimuendajú conseguiu reunir 150 vocábulos do Xukurú (1, 12), língua extinta do Nordeste que já não contava com falantes fluentes na ocasião. Destes vocábulos, aparentemente, apenas 15 foram publicados, em uma tabela comparativa fornecida por Nimuendajú a Melo (1935). Em correspondência com Mansur Guérios (1948), Nimuendajú discute seu trabalho de campo com D. Jacinta Grayürá, última falante fluente da língua Kamakã, e compartilha alguns de seus dados. Mas a Notícia de Yonne Leite sugere um material mais abundante (5), registrado em "dois cadernos de papel almaço in quarto, a lápis," com "coletas vocabulares, observações lingüísticas e etnológicas, lendas e narrativas". Considerando-se a escassez de documentação sobre esta língua, o material de Nimuendajú seria verdadeiramente inestimável.
Coleções
Outro "efeito colateral" da enorme produtividade de Curt Nimuendajú é que sua obra está espalhada não apenas em diversas instituições brasileiras, como também norte-americanas e européias — o que, de certa maneira, ajuda a salvaguardar seu legado. Encontra-se material de Nimuendajú no MAE/USP (onde está arquivada a correspondência com Carlos Estevão de Oliveira, publicada por Thekla Hartmann em Cartas do Sertão, 2000), no Museu Goeldi (onde se encontra, por exemplo, a versão de 1943 do Mapa Etno-Histórico), na Biblioteca Nacional (onde se encontra o Arquivo Nunes Pereira, que inclui correspondência com e sobre Curt Nimuendajú) e no Museu do Estado de Pernambuco (através de sua Coleção Carlos Estevão de Oliveira). Em busca constante de apoio financeiro para suas pesquisas, Curt Nimuendajú entabulou colaborações com instituições como o Museu Etnológico de Berlim, da Alemanha, e o Museu de Gotemburgo, da Suécia, cujos acervos estão disponíveis online (incluindo vários itens de Nimuendajú). Este material disperso não apenas ajuda a contextualizar o acervo do Museu Nacional, mas, possivelmente, a preencher lacunas deixadas por sua destruição.
Pesquisadores
Além do material digitalizado, mencionado na Introdução, o legado do CELIN sobrevive no trabalho dos pesquisadores que dele se valeram ao longo de suas décadas de existência: nas experiências de convívio e intercâmbio acadêmicos e em artigos, monografias e teses baseados em consultas ao acervo. Além de ajudar a reconstituir virtualmente o acervo (indicando, mais pormenorizadamente, a natureza do material pesquisado), as narrativas destes pesquisadores ajudariam a aferir o impacto que o CELIN teve em suas carreiras e, por conseguinte, na construção do nosso campo de investigação científica. Muitos pesquisadores incluem em suas publicações fac-símiles do material pesquisado (vide, por exemplo, Algumas considerações sobre o problema do indio no Brazil, importante texto de Nimuendajú (1933) incluído em Pane Baruja (2014)). Reunir tais fac-símiles (e outros que porventura permaneçam em arquivos pessoais) seria um passo importante no processo de reconstituição do acervo.
Considerações finais
As notas acima são, essencialmente, um convite à cooperação a todos aqueles que disponham de informações a compartilhar. Interessados em contribuir com este intercâmbio podem fazê-lo de três maneiras: (1) enviando seu depoimento acerca de sua experiência com o acervo (ilustrada, caso relevante, com material bibliográfico resultante de suas pesquisas); (2) enviando comentários e esclarecimentos sobre o material linguístico discutido por Leite (1960), utilizando-se da versão "verbetizada" do artigo; (3) compartilhando cópias de material obtido originalmente no CELIN.
As iniciativas propostas aqui não têm caráter oficial, nem têm como intenção competir com iniciativas de resgate que venham a ser conduzidas em um nível institucional. Trata-se, simplesmente, de uma chamada aberta à cooperação com o intento de preencher lacunas deixadas pela destruição de um acervo valioso — um patrimônio científico do Brasil e, particularmente, de seus povos indígenas — e de reconstituir, senão o acervo, pelo menos sua história. A tarefa requer um esforço coletivo que lance mão de uma vasta rede de pesquisadores, dispersa em diferentes instituições e países. Neste contexto, a Biblioteca Digital Curt Nimuendajú se oferece a continuar cumprindo com seu papel habitual de catalisador e agregador de esforços para a construção colaborativa de um repositório estável de recursos de nossa área.
Sunday, March 09, 2025
Iconic but anonymous: a note on the photographic representation of indigenous women in Brazil
"O fato de que, em trezentos anos de convivência com centenas de tribos, menos de quarenta pessoas tenham merecido o registro de seus nomes e em geral por razões banais, ilustra bem a insignificância, para o branco, do índio enquanto ser humano. Em meados do século XVIII o próprio João Daniel, missionário e bom conhecedor da Amazônia, dizia que os índios “só pelas feições parecem gente, [mas] no viver e trabalhar se devem entender por feras”."
(Porro, Antonio. 2007. Dicionário etno-histórico da Amazônia colonial. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, USP)
Between 1990 and 1994, the Casa da Moeda do Brasil (Brazil's national mint) circulated a one thousand cruzeiro note (*) celebrating a national hero: Marshall Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), who presided over the country's Serviço de Proteção aos Índios (SPI), the national bureau in charge of indigenous affairs. Rondon's task included building telegraph lines to connect Brazil's vast unknown West (inhabited by many uncontacted indigenous societies) to the rest of the country. In a country where the massacre of indigenous populations in the name of "progress" was still the norm, Rondon's motto, "die, if you must, but never kill an Indian" (Ribeiro 1954), gave him a mythical aura in the popular imaginary. Rondon is one of the most celebrated figures in the country's history, and his name is enshrined in a state (Rondônia), towns (Rondonópolis, etc.), streets, and neighborhoods. The banknote is part of a series featuring prominent Brazilian intelectuals (including writers Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade and Cecília Meireles, scientists Vital Brazil and Augusto Ruschi, and composer Carlos Gomes).
On its face the bill features a photograph of Rondon, flanked by a telegraph station and an outline map of Brazil. The reverse side features photographs of two Karajá Indians (with their typical circular facial tattoos) taken by SPI members during the 1950s or 1960s. The image of the Karajá is juxtaposed with a Nambikwara maloca (collective hut) and images of traditional indigenous subsistence (fish, manioc) and material culture items (a maraca and several ritxoko, popular clay figurines made by Karajá women). Thoroughly decorated with indigenous graphic motifs, the $1000 cruzeiro bill is a thing of beauty, in my admitedly-biased opinion (as a native of Central Brazil who's worked closely with the Karajá since my undergraduate years, leading to an MA and a PhD on their language).
Notoriously anonymous
Although promptly recognizable, the Karajá individuals in these photos have remained nameless. That may be seen as the continuation of a tendency pointed out by Antonio Porro (2007) in the epigraph above, referring to the initial three centuries of Brazil's colonization: the fact that very few indigenous individuals had their names documented, illustrating "the insignificance, to the white man, of the Indian as a human being." In the case at hand, such anonymity is even more regrettable, as the information would be easily retrievable, if there had been political will to do so. The photos were taken at fairly recent dates by expert government employees (indigenistas) with deep familiarity with the Karajá. In addition, they were presumably obtained from the Museu do Índio, an excellent federal museum founded by Darcy Ribeiro to popularize knowledge of the country's indigenous cultures by showcasing a wealth of materials collected by members of the SPI (and its successor, FUNAI).
Repatriating memories
I became initially acquainted with the identity of one of the Karajá individuals portrayed in the one thousand cruzeiro bill thanks to my Karajá friend and teacher, the late Ijeseberi Karajá. With undeniable pride he explained that the young lady portrayed on the right of the bill's reverse was his aunt Jijukè (after whom he named his daughter), photographed by João Américo Peret (1926-2011), an SPI indigenista who left fond memories among the Karajá. The information was later corroborated when a book by Peret was added to the Curt Nimuendajú Digital Library (thanks to the generosity of Renato Nicolai, curator of our Coleção Nicolai): Mitos e lendas Karajá : Inã son wéra (Peret 1979). There, on page 18, one finds the iconic picture, duly identified as Didiué (a Portuguese spelling for Jijuè, which is the male-speech form of Jijuké's name).
Although the identity of the other individual on the reverse of the one thousand cruzeiro bill seems to remain unknown, the discovery of the photograph's original version helps clarify some common misunderstandings resulting from its gradual decontextualization ("discovery" here being a rather relative term, as the picture has been publicly available for a while). The original picture is available online as part of the digitized collections of famed Brazilian anthropologist Berta Ribeiro (1924-1997), who probably obtained it from the Museu do Índio collections, where it's attributed to Mário Simões (another SPI indigenista familiar with Karajá culture) or Nilo Velloso. The original shows a Karajá woman apparently breastfeeding a baby, the latter wearing a dexi bracelet, its hand resting on the mother's breast. The currency bill, on the other hand, shows a rather cropped version, erasing the baby—and the subject's gender: the picture is often mistaken to be that of a male, as the Casa da Moeda's own website describes the individuals as a Karajá "couple," a mistake that's been reproduced in social and popular media. Wikipedia describes her as "an indigenous man of the Karajá tribe," while through no fault of their own Sepultura fans usually refer to her as "the guy from the cover of Roots."